O Altar Mor do Santuário de Nossa Senhora da Abadia
Este altar foi construído pelo Pe. Jerônimo, quando construído o santuário.
A idéia litúrgica do novo Altar-Mor é: altar-mesa. Sendo o Orago da Igreja o Divino Espírito Santo, é obvio que se deixa descansar a mesa do S. Sacrifício em sete colunas: “Sapientia edificavit sibi domun, excidit columnas septem” E para tornar aceitável a palavra “domum – casa para uma única pedra, foram citadas na parte traseira da mesma base, as palavras de Jacó (após seu sonho dos anjos ascendentes e descendentes):” Lápis iste, quem erexi in titulum, vocabitur domus Dei”. Estas sete colunas criaram também a possibilidade de enriquecer o altar-mesa em si muito simples com símbolos significativos.
Uma coluna desempenha uma função dupla; de um lado ela suporta, eleva (função de sublimar); do outro lado ela transporta o peso de tudo que ela suporta e ainda seu próprio peso para as partes subjacentes (função premente).
Por isso, encontram-se nos capitéis os sete dons do Divino Espírito Santo, os sete sacramentos e as sete virtudes principais, (3 teologais, 4 cardiais), todos meios para alcançar o fim supremo da nossa vida espiritual. Nas bases encontram-se os sete pecados capitais, estas grandes e perigosas pedras de tropeço no caminho para o fim.
Os sete pecados capitais são representados por animais:
O ORGULHO: pelo pavão que campeia as penas ornamentais.
A AVAREZA: pelo urubu que está ávido de cadáveres.
A LUXÚRIA: pelo peru que gasta bem uma hora na cópula.
A INVEJA: pela harpia, apelido aviltante de uma mulher que sempre resmunga contra os ricos.
A GULA: pelo pato mascando com ruído o que acha debaixo das folhas, no capim e na lama.
A IRA: pelo morcego (vampiro) que, à menor ameaça, mostra os dentes agudos.
A INDOLÊNCIA: pela preguiça que durante dias fica pendurada indolentemente no galho de uma árvore.
Estes animais não são mortos: por exemplo, o pavão levanta orgulhosamente a cabeça;o vampiro está pronto, cheio de cólera, para morder; a harpia abriu a boca para soprar sua calúnia imunda; mas todas as suas ações estão sendo estorvadas pela ação em conjunto dos sacramentos, virtudes e dons do Divino Espírito Santo. Estes dons são representados na parte da frente dos capitéis, a saber:
A SABEDORIA: pelo sol
O ENTENDIMENTO: por uma lâmpada acesa.
O CONSELHO: pela caveira, fogo do inferno, coroa com ramo de palmeira, conforme o conselho: “Lembrai os vossos novíssimos e não pecareis eternamente”.
A FORTALEZA: pela torre de uma fortaleza: “Turris fortitudinis a facie inimici”
A CIÊNCIA: por um facho.
A PIEDADE: por um turíbulo: “Dirigatur, Domine, oratio meã, sicut incensum in conspectu tuo”.
O TEMOR DE DEUS: por clarins que, de um céu nublado onde aparece a cruz, ressoam para os quatro pontos cardiais: “Tuba mirum spargens sonum... Rex tremendae majestatis”.
Na frente à esquerda se encontram as virtudes, a saber: as três teologais nos três capitéis acoplados no centro e em baixo da mesa.
A FÉ: uma cruz com raios luminosos: “A fé é a luz”.
A ESPERANÇA: A âncora e, no fundo, o mar bravio.
A CARIDADE: um coração em chamas.
As quatro virtudes cardiais encontram-se nas colunas angulares e são simbolizadas por animais:
A PRUDÊNCIA: por uma cobra: “sede prudentes como as serpentes”.
A JUSTIÇA: por uma pomba, propriamente indicada por Nosso Senhor como exemplo de simplicidade : “Suum cuique justitia”.
A FORTALEZA: pelo leão.
A TEMPERANÇA: por um camelo.
Na frente à direita, à frente os sete Sacramentos nas três colunas centrais acopladas, os três sacramentos que imprimem um marco indelével na alma:
O BATISMO: uma concha que derrama água num fundo formado por três argolas entrelaçadas, encerradas numa argola maior, símbolo da Santíssima Trindade.
A CONFIRMAÇÃO: escudo, capacete e espada: pela confirmação o homem se torna “Miles Christi”.
A ORDEM: cálice, estola e missal, vaso de água benta, roda de leme, galo, concha derramando água, conforme o cerimonial episcopal: “o sacerdote deve sacrificar, abençoar, governar, pregar e batizar.”
O Santíssimo Sacramento: “Agnus Dei”.
A CONFISSÃO: chaves cruzadas: poder das chaves: “Quorum remiseritis peccata, remituntur eis”.
A EXTREMA UNÇÃO: vaso com santos óleos (O I), vela, 10 cruzinhas e ramo de oliveira.
O MATRIMÔNIO: as seis talhas de Caná e duas coroas de flores entrelaçadas. Tendo os capitéis dos quatro lados angulares também o quarto lado visível, apresentam ainda as quatro bem aventuranças, referidas por São Lucas. Estas bem aventuranças sobrenaturais são também obra do Divino Espírito Santo.
Lemos sobre os apóstolos, antes temerosos, que depois da festa de Pentecostes: “Beati gaudentes, quoniam digni habiti sunt pro nomine Jesu contumeliam pati”.
“BEATI PAUPERES...” o cardo que é o alimento do pobre asno.
“BEATI QUI NUNC ESURITIS...” cactus.
“BEATI QUI NUNC FLETIS...” salgueiros-chorões com instrumentos musicais ladeando um curso de água “Super flumina Babilonis, illic sedimus et flevimus.”
“BEATI ERITIS CUM VOS ODERINT HOMINES...” instrumentos de tortura.
Resta ainda dizer alguma palavra sobre o ajuntamento seguido das várias representações.
As três colunas acopladas “pediram” as imagens das três virtudes teologais e dos três sacramentos, que imprimem caráter. Assim formaram um ponto de partida.
Em primeiro ligar, naturalmente o Batismo: “Christianae religionis aeternae vitae janua”, como diz o ritual. A isso associa-se a Fé que é infundida na alma, no momento do batismo. Talvez se possa dizer que é sabedoria começar pelo princípio.
Segue a Esperança, embora às vezes não haja afinidade direta entre a Esperança e a Confirmação foi assim mesmo ajuntada a isso porque os elementos do terceiro capitel formam, ao meu ver, uma grande unidade, não sobrando para o segundo sacramento um lugar nos três capitéis acima mencionados. O dom de Conselho nos dirige para agir de tal modo, que se realize nossa esperança .
Resta ainda a Caridade, a maior das três como diz São Paulo. Por isso se encontra na coluna mais na frente, acompanhada da Ordem, perto do lugar onde o eleito é o ministro dos sacrifícios do Novo Testamento. O sacerdote deve ter grande amor para com Deus, a cujo serviço se dedicou, e para com as almas que ele deve conduzir a Deus. Nisso, ser-lhe –á útil, mesmo necessário, o dom da Piedade.
Ao lado da Epístola vemos o dom do Conselho, pelo qual se pode formar boas resoluções, tendo caído, levantar-se quanto antes, (Confissão). Sempre dar a todos o que lhes pertence (Justiça). Ser-nos –á isto mais leve, se estivermos mais desapegados de tudo (Pobreza).
Ao lado do Evangelho há o firme baluarte da Fortaleza, ladeada pelo leão, o “Forte de Judá”, que nós recebemos no Santíssimo Sacramento do Altar, para nos alimentar e fortalecer, de modo que possamos, em caso de perigo, suportar ódio e perseguição, na esperança do prêmio supremo que nos espera.
Restam as duas últimas colunas:
A CIÊNCIA: pela qual compreendemos o que é agradável a Deus e o que serve à nossa salvação, especialmente quando se aproxima o fim. (Extrema Unção) a qual é administrada por motivo da prudência.
Bem aventurados seremos, se formos animados de sentimentos de arrependimento e penitência e se chorarmos as nossas faltas.
O TEMOR DE DEUS pelo qual o homem evita o pecado, para não ofender o justo Juiz e entristecer o bom Pai. Isso vem muito bem a propósito do Matrimônio, assim como a Temperança, porque a intemperança perturba tantas vezes a paz do lar. Bem- aventurados aqueles que souberem temporariamente passar fome.
Em relação à frente dos capitéis, que representam os dons do Divino Espírito Santo, há ainda as representações das bases (na parte da frente) destas:
A SABEDORIA (a Fé): o orgulho, porque este cega, e conduz à impiedade.
O ENTENDIMENTO (a Esperança): a luxúria, porque esta desanima e muitas vezes enlouquece.
A PIEDADE (a Ordem): a indolência no serviço de Deus, que pode causar tanto dano.
O CONSELHO (a Justiça): a avareza pela qual é prejudicado o amor ao próximo e impedido a conversão sincera.
A FORTALEZA (a Gula): porque abundância de comida, bebida e prazeres afugenta a fome espiritual.
A CIÊNCIA (a Ira): que muitas vezes inflama (por simples engano).
O TEMOR DE DEUS: (a Inveja): a suspeita, que desmancha tanta felicidade do lar.